terça-feira, 12 de abril de 2011

Um texto de Ismirino

Deixo aqui um texto feito pelo meu fiel escudeiro Ismirino, a fagulha andante.

Pobre coitado, sonha em ser escritor


Descida

Tropecei. Caí. Mas não foi um tropeço de pernas, daqueles de se
estabacar de cara no chão, de ralar as mãos e os joelhos, tampouco
foi uma daquelas quedas que abalam convicções e arranham a
alma. Tropecei com o olhar. De repente, minha visão escorregou,
precipitou-se para baixo, o cenário ao longe afundou abruptamente, como se uma fenda no céu rasgasse a paisagem e escavasse um profundo vale no ar. O deslocamento súbito da linha do horizonte me fez curvar o pescoço, prostrar a vista; um movimento involuntário, forçando-me a assentir com a cabeça a uma indagação impronunciada.

Diante de meus pés, o caminho vertia ladeira abaixo. Uma descida
íngreme, tragando a passagem, sorvendo o rumo. Do alto, escorri
o olhar, tentando alcançar o fundo daquela gigantesca rampa. Mas a trilha se escondia após uma curva. Não seria possível conhecer o fim sem a ele chegar.

Era aquela hora em que luz e escuridão se mesclam, o sol forçando
a ruptura da barra da noite. A névoa do sono começava a se dissipar, juntamente com a neblina da manhã, a realidade despertando lentamente.

Eu estava ali, no topo, mas sabia, inevitavelmente, que aquela
condição era momentânea. Não podia retroceder. A única opção
era avançar, para baixo, descer. Comecei. Inicio a descida com um
passo cauteloso, os pés primeiro testam a aderência do solo, se ajustam à inclinação da rampa. Jogo levemente o tronco para trás, para contrabalancear a força que me puxa para baixo. O corpo busca equilíbrio. Acostumado a andar por planícies, meus ossos se retorcem até se adaptar ao terreno íngreme. Contraio os músculos do pescoço, das costas e do abdômen. A respiração se altera, buscando sincronia com minhas pegadas. Sou forçado a adotar uma nova postura, mudo meu jeito de caminhar. Meus movimentos deixam de ser naturais.

À medida que avanço, cada fibra de meu corpo se retrai na tarefa árdua de me manter em pé na superfície irregular, impedir que eu saia dando cambalhotas até chegar lá embaixo. Presumo que haja um “lá embaixo”.

A certa altura, os músculos da perna parecem se recusar a enfrentar o trajeto que cada vez mais se inclina. Não vá lá, não desça. Deve haver caminho mais seguro, eles rogam. Minha mente ignora os apelos de meu sangue. E então meu corpo se vinga. Uma maldita câimbra na parte posterior da cocha me desestabiliza. Jogo o peso para a outra perna, tentando aliviar a dor. Me ajoelho e fico
parado no meio do caminho. Para cima, ficou o mundo conhecido. Abaixo, o mistério.

Ao meu lado, paredes verdes se elevam. Galhos se entrelaçam e
folhas tentam sorver os primeiros raios de luz da manhã. Casas
espiam por entre os ramos, seus muros de tijolos quase invisíveis
entre o muro formado pela mata densa.

A dor passa, retomo a caminhada. Pé ante pé. O terreno, aos poucos se modifica. Se torna mais pálido, seco. Passo em frente a um ferro-velho, ocupado por pilhas de metal retorcido. Ao passar pela porta do local, o hálito de ferrugem, tétano e gangrena chega a mim e entorpece os sentidos momentaneamente.

Meu olhar se detém. Observo o interior. A escuridão da noite, que começa a esmorecer no céu, se esconde nas sombras projetadas pelo aço disforme. Sinto como se criaturas habitassem cada ponto negro, cada buraco, cada vão onde a luz não penetra. Uma respiração rouca exala dos espaços preenchidos de vazio. Faço força e quebro o transe, consigo desconectar o olhar e continuo a descida.

Faço a curva. E então o fim se me aparece. No fundo do vale, abre-se uma rua larga como um rio, um rio de asfalto e concreto. A descida está terminada. Mas não o caminho. Na outra margem da rua, oposta a mim, o primeiro ônibus do dia esquenta os motores. Atravesso sem gravar sinais no solo infecundo. Outra etapa da jornada aguarda, sem a qual não há regresso. Então percebo que esqueci o dinheiro da passagem e o cobrador me expulsa do ônibus.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Como ser um milionário

Acabo de ver um senhor, que se apresenta como consultor de finanças e salvador dos endividados, oferecendo dicas de como se tornar um milionário em poucos anos, com "disciplina" e "bom-senso financeiro", diz ele.

Bem, o que o respectivo calhorda (sim, eu disse calhorda, processe-me se for capaz!) sugeria era um método classificado por ele de "muito simples". Basta economizar 45% da renda mensal e pronto, você conseguirá reunir R$ 1 milhão em pouquíssimo tempo.

Ora, já que um seujeito se atreve a apresentar uma ideia dessa - e cobrar uma fortuna para proferir tal sentença -, também resolvi entrar no jogo. Abaixo apresento algumas dicas, muito mais "simples" (na concepção que este indivíduo tem da palavra) e rápidas para se chegar ao tão esperado milhão.

Dica 1: Roube um banco.

Dica 2: Peça para seu chefe aumentar seu salário para R$ 500 mil e poupe 50% do salário. Em quatro meses, terá seu milhão.

Dica 3: Sequestre a filha de um magnata e cobre R$ 750 mil de resgate. Aplique o dinheiro em um fundo de renda fixa e espere.

Dica 4: Descubra a cura do câncer e venda para um laboratório por R$ 1 milhão. Dê esse dinheiro ao seu pai e espere ele morrer. Herde o R$ 1 milhão.

Dica 5: Peça um real para um milhão de pessoas.

Dica 6: Vire um ator de Hollywood. Faça filmes de terceira, se envolva com drogas e se interne em uma clínica de reabilitação. Saia da clínica de reabilitação. Volte para a clínica de reabilitação. Fuja da clínica de reabilitação pela janela. Deixe-se ser pego e levado de volta para a clínica de reabilitação. Saia da clínica de reabilitação. Tenha recaídas durante um ano. Saia de vez da clínica e se envolva com uma ONG dedicada à alfabetização de coalas. Peça para um produtor te arranjar um papel de viciado ou homossexual em um filme de algum diretor que fez sucesso com algum filme independente e foi contratado pela grande idústria. Quando os jornais começaram a falar de sua "volta por cima", faça um filme arrasa-quarteirão e cobre um cachê equivalente a R$ 1 milhão.

Dica 7: ganhe na loteria.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Palhaçada total

Como já disse no post anterior, estou demasiadamente ocupado.

Mas, para não dizerem que abandonei este blog, deixo vocês com uma piadinha, uma de minhas favoritas, principalmente por causa do teor preconceituoso e politicamente incorreto.

Estava a multidão reunida para o apedrejamento da prostituta Maria Madalena. No meio da turba, o brasileiro Jamilson (na versão original o papel de Jamilson era desempenhado por Manuel, mas a versão é minha e faço o que quiser) admirava o espetáculo. Como bom brasileiro, Jamilson adorava entrar no embalo de um burburinho, chutar o morto, agitar um barraco etc.

Estavam todos prontos para iniciar a execução de Maria Madalena, quando eis que surge Jesus. O messias se dirige a Maria Madalena diante dos olhares atônitos de todos. Ele se ajoelha ao lado da mulher demonstrando compaixão. Então volta seu olhar reprovador para a multidão presente, e diz: "aquele que nunca errou, que atire a primeira pedra!"

Todos vacilaram e, envergonhados, baixaram as mãos. Mas Jamilson não teve dúvida. Pegou uma grande pedra e arremessou, acertando Maria Madalena em cheio bem no meio da testa, quase matando a mulher.

Jesus ficou pasmo. Sem saber o que dizer, ele vira para Jamilson e grita: "Porra, Jamilson, será que você nunca errou na vida?"

E o Jamilson: "Ué, desta distância, nunca..."

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Maldito fiapo de manga 2

Como recebi inúmeras cartas de leitores (sim, cartas, de papel) perguntando o que diabos havia acontecido comigo, que não atualizo mais o blog, aí vai uma breve, porém rica e eloquentemente singela explicação.

Bem, atualmente estou dedicado a um projeto grandioso, uma obra literária que irá abalar os pilares da Terra, remodelar a filosofia do século 14, demolir as estruturas vigentes, torcer conceitos e joelhos.

Sim, é isso mesmo que vocês entenderam. Estou às voltas com um novo livro, o 75º de minha carreira. Provavelmente vocês nunca ouviram falar que eu tinha lançado os outros 74, pois usei diversos pseudônimos: Machado de Assis, James Joyce, Euclides da Cunha, Clarice Lispector e, nos trabalhos mais recentes, passei a assinar como O Grande Autor.

Mas isso, na verdade, não é nenhuma novidade. Frequentemente estou ocupado demais para dar conta deste blog, por isso, sempre que preciso me ausentar, deixo minha segunda personalidade tomando conta do site. No entanto, minha maldita identidade esquizofrênica - um violoncelista frustrado que acabou virando operário - ganhou férias da fábrica e foi viajar.

"Por que não pede para Ismirino atualizar?" perguntará um dos 18 leitores deste blog. Ora, da última vez que deixou Ismirino tomando conta do blog isso aqui virou um caos.

Assim, estou aqui deixando um aviso, que continuarei postando minhas pílulas de sabedoria conforme houver tempo.

É isso, recado dado.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Então, resolvi voltar à academia

Acredito que nessa vida, é tão importante ser inteligente, sagaz e perspicaz quanto é necessário ser forte, ágil e imunologicamente robusto. Não se pode contar com os bons modos nos tempos de hoje.

A qualquer minuto você pode ser destratado por um caixa de supermercado e ter de ensiná-lo a tratar um cliente de maneira apropriada; ou ainda abrir caminho para fora do metrô lotado com uma boa dose de empurrões.

Quando o Apocalipse se instalar, o que não vai demorar muito pelos meus cálculos, não pensem que a humanidade se unirá pela desgraça e começará a construir uma nova era guiada pela razão e pela bem-venturança de modo a evitar os erros do passado.

Nada disso! Será uma grande, sangrenta e interminável batalha pela vida. Eu sei, eu já vi. Por isso mesmo, tenho o cuidado de manter a forma física assim como a acuidade mental.

Há poucos dias passei a freqüentar uma academia. Nada chique, nada moderno. Apenas alguns aparelhos enferrujados já são o suficiente para eu me exercitar. Como é costume, precisei realizar aquele tal de exame médico. O instrutor, um tipinho esquisito, veio fazendo aquelas perguntas de praxe. “Fuma?”, “bebe?”, “joga?”, “tem problemas de saúde na família”. “Sim”, “sim”, “sim”, “s... cale a boca e termine logo com isso”.

Depois disso, o rapaz precisou mostrar como operar aquelas máquinas. O tempo todo ele fica repetindo, “não esqueça de respirar, hein?”. Tomo aquilo como um insulto. Como assim? Não esqueça de respirar? Isso é o tipo de lembrete que você precisa dar a nadadores ou uma vítima sendo asfixiada com um saco plástico por um mafioso. Por isso, após a quinta vez que ele repete a maldita sentença, agarro o maldito pela alça da regata, o levo até um pequeno tanque e enfio a cabeça dele na água. Quando permito a ele emergir novamente, digo para ele lembrar de respirar, então volto a submergí-lo.

Bem, de nada adianta músculos sem agilidade e conhecimento de batalha. Por isso também me matriculei na aula de muay thai, a famosa luta tailandesa. No primeiro dia, o professor nota minha técnica e pergunta se eu já havia praticado o esporte. Explico que não, mas nos dias em que vivi nas florestas hiperbóreas, eu costumava enfrentar diariamente ursos que tentavam roubar meu estoque de geléia de amora.

O professor então resolve me dar um teste. Ele manda que eu suba no ringue para simular uma luta com um dos alunos, um sujeitinho baixo e troncudo. Ele vem para cima de mim, então, rapidamente, saco meu revólver e disparo um tiro em sua cocha. Mais uma vitória.

E é isso. Agora sumam daqui.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O vendedor que perguntou demais

- Posso ajudar o senhor?

A pergunta vem de um rapaz de avental azul, com uma perna mais curta que a outra, um corte de cabelo de R$ 1,99 e um bronzeado de lâmpada halógena. É um vendedor, logo notei pela frase artificial, o tom de voz monótono de quem repete a mesma sentença até ela ficar mais gasta que a sola do sapato de um andarilho.

- O senhor precisa de ajuda?

A mesma pergunta de novo. Mas do que diabos ele está falando? O que esse jovem acha que pode fazer por mim? Esse infeliz devia estar aprendendo a andar quando eu expulsei à unha aquela horda de sem-terras do meu sítio. Mal devia ser alfabetizado quando, sozinho, desmascarei a conspiração da indústria de materiais de construção. Será que ele está se oferecendo para me ajudar a solucionar o caso que eu tenho em mãos? O caso Freitag, que me assombra há semanas e... espere, como não pensei nisso antes, foi o...

- Senhor, o senhor precisa de ajuda, senhor?

O quê? Esse maldito interrompeu minha linha de raciocínio! Como se atreve? Agora estou de volta à estaca zero! Se não estivesse com pressa, ensinaria este inseto a ter bons modos da mesma forma como ensinei Gengis Khan a tomar sopa sem produzir ruídos!

- O senhor está procurando um livro?

Um livro? Mas o que... Ah, agora noto. Isto é uma livraria. Entrei no primeiro lugar que vi para me abrigar da chuva e não reparei onde estava. Bem que estranhei esse monte de prateleiras.

Bem, se esse jovem incauto me conhecesse melhor, saberia que jamais entraria numa livraria à procura de um livro. Como todos bem sabem, não é qualquer coisa que posso ler. Sempre que abro uma obra, as palavras simplesmente se dissolvem. E não apenas com livros. Isso ocorre com qualquer tipo de leitura.

Certa vez, eu estava viajando para o interior do Estado de San Pablo, quando tive de olhar para uma placa para me orientar. Onde estava escrito “Pirapozinho, siga em frente”, as letras se reorganizaram e soletraram “Lewis vem aí; os Céus tenham misericórdia”. Chegando ao meu destino, avistei a placa de “Bem-vindo; esperamos que tenha boa estadia”, que automaticamente se transformou em “Pecadores, preparem-se: a hora do Juízo está sobre vós!”.

- Moço, estou perguntando se o senhor precisa de ajuda há cinco minutos. Não tá ouvindo não? O senhor vai querer alguma coisa?

Agora chega. É hora de colocar esse rapaz em seu devido lugar.

- Senhor, posso ajudar ou não?

- Sim, preciso desesperadamente que o senhor faça algo por mim.

- Pófalá, senhor, tamos aqui para ser vir.

- Muito bem. Suba ao segundo andar, posicione-se no primeiro degrau da escadaria, levante o pé direito e desça-o violentamente sobre o joelho esquerdo, enquanto joga seu peso para frente. Quando finalmente conseguir parar de rolar e estiver procurando os dentes, tente memorizar as palavras "nunca mais ofereça ajuda a ninguém, verme nojento". Aí, sim, estarei satisfeito.

Os olhos dele ficam intumescidos. Uma lágrima escorre pela face, ele tira o avental, joga-o no chão e sai correndo para a rua encharcada berrando em meio à chuva: “eu não agüento mais!”

Eis que meu celular toca. Era um atendente de telemarketing. Saquei meu "Manual Para Lidar Com Cretinos Que Invadem a Privacidade Do Seu Celular", abri um sorriso e respondi. Parece que o dia não será, de todo, perdido.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Manual da convivência humana - parte 1 de 783

Estava eu em meu sofá surrado, cutucando as cutículas dos dedos dos pés e pensando em como Ismirino é entediante até mesmo executando uma atividade extremamente carregada de adrenalina, como tentar laçar um porco selvagem com um rolo de fio dental. Foi aí que lembrei que eu havia ficado devendo uma continuação ao meu post anterior.

Todos devem se lembrar de meu último e brilhante e texto, em que falei sobre como as pessoas andam por aí sem desviarem umas das outras, causando terríveis ombradas. Esse ato de desrespeito foi a gota d'água. É o cúmulo da total incapacidade de viver em comunidade em harmonia. Resolvi que não posso mais observar esse bando de sociopatas miseráveis se comportando tão mal sem que uma providência seja tomada. Caberá a mim, obviamente, adestrar a humanidade e ensinar-lhe bons modos. Por isso, criei um manual de regras para a convivência em grupo, o qual apresentarei a seguir.

Serei curto, grosso, arrogante, olímpico, inexpugnável, aderente e incontestável ao propor algumas normas. E, quem ousar desobedecê-las, "como um cego em uma orgia, terá que farejar muito para se livrar do problema em que se encontrará". Ah, o mestre Leslie Nielsen, sempre merecedor de uma citação.

Muito bem, vamos a elas:

1) A Internet não é terra de ninguém. Portanto, a partir de agora, o senhor - sim, o senhor, maldito - não poderá mais gastar os preciosos bytes da rede publicando uma sequência de fotos de cada momento de seu filho aprendendo a usar o penico, e nem fazer uma montagem passo a passo de sua petúnia desabrochando, num processo que dura oito horas em uma manhã nublada de outubro.

E mais: cada ser abjeto que cometer acintes ortográficos como "voçê", "naum" ou "tAh Di ZuAsSaUm", terá todos os dedos decepados, com exceção do dedo médio do pé esquerdo, que terá lascas de bambu enfiadas sob a unha.

2 a) A leitora, em tocante desespero, pergunta: "Braddock, mas e as criancinhas? O que será delas?". Pois bem, eu digo: todas serão afastados dos pais no dia do nascimento e serão criados por orangotangos treinados em laboratório. Aos sete anos, serão devolvidas à família original, e então poderão ser iniciados na educação. O currículo escolar, do pré-primário ao segundo colegial, será composto por: matemática, geografia, português, montagem de motores de combustão interna, operação de maquinaria pesada, procedimentos de segurança em caso de um ataque com armas biológicas, curso introdutório de sobrevivência ao Apocalipse e música neo-barroca.

2 b) Ainda dentro desse tópico, todos serão terminantemente proibidos de assitir a novelas. Também será vetado ouvir pagode, sertanejo universitário e e-garbage (ou música eletrônica, como preferirem), bem como, claro, assovios fora de sincronia. Como uma medida inicial de boa vontade, algumas ações serão executadas, tais como: Luan Santana terá as cordas vocais extirpadas e será prontamente extraditado para a Venezuela dentro de um barril cheio de saúvas; o conjunto Restart será mergulhado em um tonel de tinta cinza fervente, polvilhado de grãos de milho e posicionado ao redor do marco zero da Praça da Sé.

3) Tendo coberto a educação e a cultura, voltemo-nos aos transportes públicos. Todos devem estar familiarizados com aqueles canalhas que entram no ônibus com música emanando dos fones de ouvido no último volume. Para não falar daqueles malditos que ouvem forró no radinho a pilha como se estivessem no próprio quarto.

Fiz uma pequena lista para classificar alguns comportamentos totalmente inapropriados, ainda mais dentro de meios de transporte públicos. Qualquer um que se encaixe em uma das categorias abaixo, obviamente não tem a menora condição de sair de casa, muito menos dividir um espaço que já está superlotado:

1 - aquele que não sabe onde fica o botão de diminuir o volume do walkmen a fita;
2 - que espirra no metrô, tira o excesso com a mão, dá uma passada na calça e volta a segurar nas barras de equilíbrio;
3 - que mistura um desodorante com essência de canela com um perfume de laranja silvestre e veste uma regata para sair à rua;
4 - que sua em profusão;
5 - que tropeça com frequência;
6 - que fala ao celular aos berros, como se o moderno aparelho fosse uma lata conectada por um barbante a outra lata sendo segurada por um indivíduo que foi picado por uma abelha africana bem no tímpano.

Basta uma, vejam bem, UMA dessas infrações para que o patife tenha marcado a ferro e fogo na testa um gigantesco "X". E não, não me importo se sua pressão caiu, se você tem rinite alérgica ou se você é narcoléptico. O mundo já foi condescendente por demais.

Por enquanto é isso. Essas regras serão outorgadas no dia seguinte à minha posse como governador do mundo, em um futuro pós-apocalíptico não tão distante quanto vocês imaginam. Aproveitem que terão esse tempo para digerirem essas regras, pois não haverá desculpa depois, nem clemência, para aqueles que trepidarem ou pisarem fora da linha!

"Tolerância Zero" é apenas o subtítulo do preâmbulo inicial ao prefácio do manual que servirá de introdução ao verdadeiro manual de conduta durante minha estadia sempiterna no poder.

Ah sim, por enquanto, ainda permitirei manifestações nos comentários deste blog. Mas, que fique avisado, quem ousar fazê-lo, "como um anão em um mictório, deverá ficar na ponta dos pés". Ah, Leslie Nielsen... Este será meu ministro-chefe da Casa Civil.